domingo, 4 de outubro de 2009

Ode ao CUJO

Seção: Língua e Etiqueta
“A menor distância entre dois pontos é sempre uma reta”, diz o teorema matemático que prima pela rapidez e evita esforços desnecessários. Se, na matemática, economia é lei, na língua portuguesa, os falantes parecem não se importar tanto em tomar o caminho mais dispendioso.
Observe:
Eu não sei onde deixei o livro. A capa do livro está caindo.

Para desfazer a repetição da palavra livro, os falantes condensam as duas frases acima através de incríveis malabarismos linguísticos do tipo:
Eu não sei onde deixei o livro que a capa dele está caindo.

Essa construção (que pretende ser) condensada está, no entanto, longe de ser econômica. E o arcabouço da língua portuguesa oferece, sim, a seguinte solução de extrema eficiência:
Eu não sei onde deixei o livro cuja capa está caindo.

Talvez haja a falsa concepção de que o uso do pronome cujo reveste a frase de muita formalidade. No entanto, nada justifica o descaso que tal pronome vem sofrendo, uma vez que ele não é um adorno com que se enfeita uma frase, mas uma palavrinha eficaz da qual não se deveria fugir.
Teorizando, cujo é um pronome que atua como um elo indicador de posse: a palavra que o segue designa algo que é possuído por seu antecedente. Esquematicamente, ter-se-ia: possuidor + CUJO + possuído.
Veja mais exemplos de malabarismos linguísticos:
Você leu nos jornais sobre a menina que o namorado dela foi sequestrado?
O cachorrinho que a pata dele estava quebrada foi adotado por uma família.
A menina que o carro dela está sempre na calçada foi multada.

Analise, agora, os caminhos mais econômicos:
Você leu nos jornais sobre a menina cujo namorado foi sequestrado? (o namorado é possuído pela menina)
O cachorrinho cuja pata estava quebrada foi adotado por uma família. (a pata é possuída pelo cachorrinho)
A menina cujo carro está sempre na calçada foi multada. (o carro é possuído pela menina)
Fernando Sachetti


Leitura obrigatória

Seção: Clichês em discussão
É inerente à raça humana rejeitar obrigações. Tudo aquilo do que não se pode fugir é encarado como fardo. E, infelizmente, é como um fardo que a leitura tem sido suportada pelos estudantes, sobretudo, às vésperas de exames vestibulares. É desnecessário dizer que o prazer advindo de uma boa leitura tem perdido espaço para outros entretenimentos. O que se questiona é o porquê de a leitura estar dissociada do prazer.
Inúmeros alunos proclamam que a rotulação leitura obrigatória, ao invés de instigar-lhes a ânsia por ler, produz efeito contrário, à medida que lhes retira a liberdade de escolha. Num primeiro momento, essa asserção até parece coerente. Entretanto, a obrigatoriedade de uma determinada leitura não significa que o aluno deva ler unicamente aquilo a que é obrigado. Em outros termos: uma leitura cobrada e uma espontânea podem, perfeitamente, ser realizadas concomitantemente.
Ademais, os números provenientes de pesquisas que avaliam a leitura no Brasil têm demonstrado que o brasileiro (e não só os vestibulandos) lê parca e insuficientemente.
Assuma-se: o brasileiro não tem intimidade com livros. Porém, conferir a culpa dessa falta de intimidade à rotulação leitura obrigatória é transferir a responsabilidade do aluno ao professor. Ressalte-se, todavia, que o professor não é o único responsável por despertar o interesse pela leitura no aluno.
Fernando Sachetti

"O Calor das Coisas", de Nélida Piñon

Seção: Isto é Literatura
Enquanto eu esforçava-me em homenagear aquela casa, o padrinho começou a fotografar-me. Fixava com avidez inesperada instantes dos quais eu viria envergonhar-me. Vergonha de não ter sentido forte, de não ter avaliado a intensidade daquele domingo numa ilha “gallega”. Eu não queria que ele me regalasse um dia com a visão de um passado sem alma. De que serve o futuro povoado de retratos amarelos? – p. 85

Haviam-me descrito a avó como uma velha graúda, de vigor camponês no seu tempo de ouro. Igualmente capaz de estripar animais, mexer-lhes as vísceras, e preparar-se jubilosa para as festas de agosto. Mas, não me iludisse agora com seu estado, a vida atual desmentia o que havia sido. Logo acostumei-me à luz pálida do quarto. A avó no leito vestia-se com uma camisola branca rendada, um traje de noiva reluzente, e mal percebia-se a respiração saída do seu corpo calcinado. – p. 87
excertos retirados de O calor das coisas, de Nélida Piñon (Editora Record, 1997).

Deleite ao martelo, à bigorna e ao estribo.